O lado do papel higiênico

Existem coisas na vida que são interessantes justamente por sua trivialidade.

Por exemplo, notar as pequenas diferenças que existem entre as pessoas. Recentemente, durante uma visita à casa de um amigo, notei que ele colocava o papel higiênico do lado contrário ao meu. Isso parece algo tão bobo, mas me fez pensar sobre as diversas concepções que temos dos outros.

É impossível não vermos e interpretarmos a realidade como um mero espelho do que acontece em nossa própria vida. Então, quando colocamos o papel higiênico de um jeito em casa, naturalmente pensamos que todas pessoas fazem o mesmo. Mas elas não fazem. Assim como várias das coisas que fazemos ou conhecemos não são tão comuns para as outras pessoas.  Não é todo mundo que toma café de manhã, que tem uma agenda, que deixa um tapete na saída do box do banheiro, que lava roupa uma vez por semana, que bota meia-colher de sal no arroz…

As pessoas são diferentes de maneiras triviais e insignificantes, mas também em um nível mais fundamental e importante.

Às vezes, quando estamos em uma sala de aula, pensamos que todos ali têm os mesmos conhecimentos que a gente. Vemos uma pessoa levantar a mão para fazer uma pergunta para o professor e imediatamente pensamos “mas como é que ela não sabe nem isso?”. Simples. Ela não teve a mesma vida que você. Ela não é você. Isso parece tão óbvio, mas na verdade é um conceito incrivelmente difícil de internalizar. Uma pessoa pode ter visto como fatorar uma expressão matemática na quarta série, enquanto outra pode nem ter tido uma professora de matemática na quarta série. No entanto, mesmo tendo noção disso, rapidamente julgamos os outros por algo que é, basicamente, não ter vivido nossa vida.

Esse mesmo padrão é reproduzido em diversas outras situações, por exemplo quando vemos uma pessoa que não gasta dinheiro facilmente. Eu sou assim. Comprar coisas que não sejam necessárias para minha sobrevivência é extremamente difícil para mim. Meus amigos me chamam de mão-de-vaca, mas eu acho que nossas diferenças são mais profundas que o fato de eu guardar ou não meu dinheiro.  As pessoas que estão normalmente à minha volta nunca conheceram a necessidade, elas nunca passaram um dia sem comida ou tiveram que se abstrair de comprar um sorvete, senão não teria dinheiro pro arroz da semana. Eles não pensam o quão louco é gastar 10 reais num sorvete quando 10 reais compram 3 quilos de arroz, eles não estão sempre fazendo uma conversão mental de quantos dias de comida aquele real gasto vai te custar.  Eles vão em um restaurante e deixam a comida intocada no prato, enquanto eu me obrigo a comer até o último pedaço, pois eu sei que o contrário, não ter o que comer, é muito pior. Eu me recuso a desperdiçar algo tão vital e ao qual tantas pessoas não têm acesso. Não é só “ser mão-de-vaca”.

Acho que o que eu realmente queria dizer com isso era que não somos todos iguais. Mesmo que inconscientemente saibamos, acho que vale a pena relembrar.

 

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